Moving time  5 hours 44 minutes

Time  7 hours 28 minutes

Coordinates 3685

Uploaded April 12, 2019

Recorded April 2019

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12.93 mi

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near Porto Covo, Setúbal (Portugal)

No parque de campismo, onde pernoitámos, estacionada ficou a viatura que nos levou até Porto Covo. Agora serão as nossas pernas a levar-nos até ao "Promontorium Sacrum" de Estrabão.
Com promessa de chuva, o dia acordou sorridente mas não excessivamente risonho. Descíamos pela avenida, ladeada de Palmeiras, quando, em frente à escola, uma pastelaria, não sei se pelo facto de se encontrar aberta àquela hora se pelo "Pequenos Almoços" escrito no toldo, pescou-nos o olhar e trouxe-nos a vontade de "desjuar" (diria o Ti Squim).
Bem "pequeno almoçados" retomámos o caminho um quarto de hora após.
Descemos à Praia da Baía e, em periclitante equilíbrio sobre os calhaus rolados, atravessámos a ribeira de água espraiada que nos separava do carreiro que subia, sinalizado, na outra margem. Subimos à arriba e começámos a sentir o sopro forte do vento que pela jornada fora nos haveria de obrigar a uma inclinação forçada para manter o equilíbrio.
Caminhamos já, a 80 metros acima da superfície do mar, num caminho delimitado por paus e cordas em direcção às arribas das praias da Bica Vermelha e da Engardaceira. O esculpido que a natureza fez nestas praias é absolutamente fantástico. Lá em baixo o enfurecido oceano ruge ameaçador. A distância de pouca mais de um metro que, por vezes, nos separa do precipício, fôramos nós conscientes e seria motivo de dissuasão no trilhar destes caminhos. Mas a nossa consciência do perigo anda arredia quando a beleza nos inebria o espírito. Não se pense, todavia, que são uns inconscientes que aqui vão caminhando. Não. Cada passo é calculado para que os acidentes não aconteçam.
O mosaico colorido, que vamos disfrutando, tem nuances de sonho: o forte azul marinho, o suave azul celeste por entre castelos brancos e cinza, as cambiantes múltiplas de verde, amarelo e encarnado do chorão das praias (carpobrotus edulis) já floridos de rosa forte ou ténue amarelo, o vermelho vivo dos ouriços das dunas (centaurea spherocephala) os verdes fortes dos rasteiros juníperos e as pinceladas multicolores de outras muitas flores... sonhemos então, mas não muito que as arribas são altas e o mar ruge lá em baixo ameaçador. As dunas antigas apresentam um risco, de muitos passos feito, que vai contornando a abrupta falésia.
Já se vê ao longe o ex-libris desta zona: a ilha onde um vizir terá plantado um pessegueiro. Matou-se novo por amor. Amasse ele tanto a beleza desta paisagem e vontade não teria que a vida se lhe acabasse e menos ainda de motu (Im)próprio.
Descemos agora à praia. Um informante letreiro diz que o caminho se faz agora arenando praia além até ao forte que do "Pessegueiro" tomou o nome diminuindo o de Forte de Nossa Senhora do Queimado do Pessegueiro. Na ilha o que resta das ruínas do forte de Santo Alberto lembra o inacabado projecto de defesa, que inacabado ficou, e de que restam as ruínas, cada dia mais arruinadas, que observamos. Contaram-me que teria começado quando Portugal era Espanha e que se destinava a defender a costa de piratas, talvez menores que aqueles que nos haviam, a saque, levado a independência.
Deixemo-nos de estórias que, de novo, caminhamos nas arribas e a atenção tem que ser mais que muita.
Este caminho não é para caminhar é para usufruir. Usufruir cada pormenor, cada requebro da arriba, cada colorido das plantas, com ou sem flores, cada tom da areia ou arenito, cada reflexo do xisto da rochas lá em baixo, cada som do mar rugento e cada surpresa em cada curva do caminho. Deixamos para trás os Aivados. Segue-se a praia da Cruz. Os grãos da areia distinguem-se cá de cima porque são grãos e não grinhos.
Afastamo-nos agora da falésia. Uma placa que, cansada de estar ali em pé, se deitou diz-nos que vamos ter que fazer 3 kms por caminho de areia contornando as dunas. Melhor seria que tal informação fosse vendida e não dada porque eu a não comprava de certeza. Caminhando "deserto" fora lá fomos fazendo os longos 3 kms de caminho de areia contornando as dunas distraindo-nos com cada singularidado do caminho. A papoila, de noiva vestida, presumo que não devesse por aqui casar, mas com tanto estrangeiro neste caminho que importa que umas mais por aqui se fixem. Já as anchusa são de cá e por aqui casam bem. Outra coisa que para cá das dunas existe são pastagens desertas de gado.
Percorridos os tais 3 kms à volta das dunas, voltamos às arribas sobre a praia do Malhão. Nunca um topónimo foi tão condizente com a situação, pois tal é a malhação do mar lá em baixo que cá em cima se ouve o gemer das rochas.
E cá vamos enchendo a alma de mar e a memória de requebros de arribas, sonhos de flores, cores saareanas de areias, arenito e xistos e sons de gemidos de sereias castigadas por Neptuno.
Na Angra da Barrela lavou-se-nos o espírito ao contemplar aquilo que sabíamos existir. Ver toca cá dentro, abana os sentidos e captura toda a nossa atenção. É o deslumbramento total. Um ninho de cegonha pousado na rocha dentro do oceano. A costa Vicentina tem a exclusividade deste cenário, de tão bela que é até cegonhas a escolheram para nidificar.
Daqui para a frente foi um deambular por falésias, observando praias, marejando a alma, penteando o vendo, saboreando cor até à linda praia de Vila Nova de Milfontes. Não vimos as nascentes de água doce em plena praia porque o cansaço nos venceu. Fica prá próxima...
A fonte do ópio

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