Time  10 hours 11 minutes

Coordinates 3861

Uploaded May 9, 2018

Recorded October 2017

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near Allariz, Galicia (España)

Depois de uma noite barulhenta e mal dormida, o Café Novo serviu-nos o pequeno almoço bem cedinho, às 7 e pico já lá estávamos a tomá-lo. Mas de nada serviu: os encantos da velha cidade aprisionaram o meu olhar, fotos e mais fotos, a Igrexa de Santiago (séc XI), a beleza da ponte romana, eram 8:15 quando finalmente deixamos para trás o rio. E isto apesar da atmosfera farrusca, que ocultou o colorido vibrante da hora azul.

E a progressão continuou, depois, muito difícil. É que, apesar de nos aproximarmos de uma das grandes urbes do nosso Caminho, a verdade é que a ruralidade, a paisagem, os monumentos e pontos de interesse voltaram. Até os hórreos mais caracteristicamente galegos fizeram a sua aparição, espreitavam a cada esquina. E voltou uma luz fabulosa, que tornou tudo mais fotogénico. Reconquistamos muita da beleza que tinha ficado lá para trás, perdida em terras Lusas.

À despedida de Allariz esperava-nos a estrada, até à área de descanso de Roiriz; mas a partir daí o trilho leva o peregrino por uma natureza cada vez mais envolvente, e um velho caminho entre muros, serpenteando pelos bosques, cheio de vestígios de calçada romana, enfeitiçou-nos, não queríamos que acabasse. O Outono já habita em força por estas bandas, tudo à nossa volta é amarelo, laranja, verde e ferrugem, as folhas caem vagarosamente como flocos de neve cor de fogo na nossa frente, enquanto caminhamos sobre um fofo tapete da mesma cor. O céu encoberto furtou as luzes intensas e contrastes descendo por entre a canopia da floresta, o que favoreceu o drama e atmosfera de magia. O CPI é para fazer no Outono!

Sucedem-se agora os pequenos lugares de fisionomia cada vez mais galega, casas de granito pequenas, modestas, a ruralidade por todo o lado.
A calçada é uma derivação da Via XVIII do itinerário de Antonino, que desde Allariz por Frieira, Roiriz, Turzás e Santa Mariña conduz ao vale da Rabeda em direcção a Ourense.
Foi desde a Idade Média muito percorrida pelos peregrinos desta zona e pelos que vinham do sul pela Via da Prata.
E eu sinto-os, como os sinto de forma ainda mais intensa em muitos lugares do caminho Francês. Não me perguntem como. Vão.
É segredo do Caminho de Santiago.

Não tarda nada deparamos com o conjunto rupestre do Monte do Señoriño; mas as surpresas não acabam e somos presenteados com a espantosa Armea, um assentamento inicialmente castrejo e depois romanizado, ocupado entre os séculos III a.C. e o IV d.C. O recinto abrangue uma extensão de 357 por 169 metros, situando-se o castro no topo, com a vila romana na encosta nordeste. Arruamentos, rede de esgotos, canais de evacuação de águas pluviais, dois dómus... só visto. E vai ser um Museu ao Ar Livre.
Local de eleição para almoçarmos calmamente, enquanto passeávamos por entre as ruínas e imaginávamos o bulício de há 2000 anos atrás.

Adiante, e depois de mais um pouco do belo caminho, entroncamos no asfalto em As Pereiras. Estamos agora sim na verdadeira Via Sanabresa, já minha conhecida, há 9 anos fui de Sevilha a Fisterra pela Via da Prata + Sanabresa + Caminho Português Central até ao Porto. Só não choveu no último dos 21 dias de caminhos de lama que me prendiam o trailer da B.O.B. Desta vez estamos com mais sorte...
Mais à frente, no Descanso, o ritual: café, madalena e um selo.

De novo o asfalto, depois o mais dificil para um peregrino: a travessia dos polígonos industriais, neste caso o de San Cibrao das Viñas.
Rápido se esqueceu o suplício. Designadamente quando fizemos um pequeno desvio e subimos a Santa Águeda, um lugar de paz onde só existe a capela, água e umas fantásticas vistas sobre Ourense.
Nestes últimos quilómetros, a chegar a Ourense, passaram por nós muitos ciclistas portugueses, em grandes e ruidosos grupos, quebrando um pouco a mística deste belo trajecto. Mas sabíamos que este dia e o seguinte seriam assim - estávamos a atingir Ourense num 6 de Outubro, Sexta, ponte...

De beleza em beleza o caminheiro entra agora em San Breixo, uma encantadora povoação à porta de Ourense, o património construído lindamente restaurado. Um prazer.
Já a entrar na grande cidade, a cerveja e as tortillas (as primeiras desta viagem) no Mesón A Sainza deram-nos novas forças.

Em Ourense o Albergue, já meu conhecido, estava bem cheio de gente, entre eles um português.
É aqui que finalmente pernoitamos com os peregrinos que saem da Via da Prata e tomam a Via Sanabresa para chegar a Compostela.
É, ao 15º dia, a primeira noite em que dormimos ocupando os dois andares de um mesmo beliche, na estimada companhia de outros peregrinos, com roncos e... alguns ruidos de sacos de plástico ecoando pela camarata, que algum peregrino inadvertidamente meteu na mochila - saco de plástico é o pior e mais barulhento item que pode levar na bagagem!

O CPI

O Caminho Português do Interior é um dos trajectos utilizados pelos peregrinos Portugueses para chegar a Santiago de Compostela. Por ele seguiam os que partiam da zona Centro, em redor de Viseu, e, claro, todos aqueles que viviam no eixo Viseu > Chaves. Também de Coimbra alguns seguiam por esta via, quando queriam evitar o Caminho Central que seguia via Porto > Valença, ou pretendiam juntar-se a outros grupos que partiam do interior.
Os peregrinos da Via da Prata, que segue de Sevilha até Astorga, onde se junta ao grande Caminho Francês, na maior parte das vezes deixavam a via da Prata em Granja de Moreruela onde tomavam a Via Sanabresa; outros saiam antes, em Zamora, entravam em Portugal por Quintanilha e saiam por Vinhais, atingindo depois Verin. Em qualquer caso todos acabavam por se juntar e nomeadamente a partir de Ourense todos seguem o mesmo trajecto até ao Campo de Estrelas - os do Caminho Interior Português e os da Via da Prata.
Foi um dos mais bonitos dos muitos caminhos que já fiz até Santiago, sobretudo na metade portuguesa do percurso. O Outono é mesmo a altura ideal para o fazer, com os dias mais curtos, as temperaturas amenas, os céus calmos. E a paisagem é espectacular, começando logo com os marmeleiros carregados, salpicando de amarelo toda a paisagem em torno de Viseu, o colorido feérico das vinhas que nos acompanha desde Reconcos, próximo de Lamego, até Vila Real, ou a beleza dos castanheiros e carvalhos vestindo-se de tons outonais até Chaves. E a abundância não tem limites: comemos toneladas de marmelos, maçãs, nozes (muitas nozes!), castanhas, amoras (serôdias!), pêras, uvas, medronhos...
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Aqui ficam os links para os registos de cada uma das etapas:
Track Integral 457 km agregador das 21 etapas
Etapa 01 15.82 km Farminhão - Fontelo
Etapa 02 17.79 Km Fontelo - Almargem
Etapa 03 24.56 Km Almargem - Ribolhos
Etapa 04 23.90 Km Ribolhos - Aldeia do Codeçal
Etapa 05 21.02 Km Aldeia do Codeçal - Lamego
Etapa 06 21.06 Km Lamego - Santa Marta de Penaguião
Etapa 07 19.68 Km Santa Marta de Penaguião - Vila Real
Etapa 08 27.50 Km Vila Real - Parada de Aguiar
Etapa 09 23.76 Km Parada de Aguiar - Vidago
Etapa 10 18.99 Km Vidago - Chaves
Etapa 11 29.93 Km Chaves - Verín
Etapa 12 21.39 Km Verín - Viladerrei
Etapa 13 24.48 Km Viladerrei - Sandiás
Etapa 14 14.01 Km Sandiás - Allariz
Etapa 15 24.05 Km Allariz - Ourense
Etapa 16 23.98 Km Ourense - Cea
Etapa 17 21.40 Km Cea - Castro Dozón por Oseira
Etapa 18 25.38 Km Castro Dozón - Lalín - A Laxe
Etapa 19 18.04 Km A Laxe - Bandeira
Etapa 20 25.19 Km Bandeira - Pico Sacro - Lestedo
Etapa 21 14.21 Km Lestedo - Santiago de Compostela
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Mapa geral da Peregrinação:
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Praza Eironciño dos Cabaleiros

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